fbpx

Bolsonaro repete o erro do regime militar, que cassava mandato e não explicava

Uma vez, conversando com o general José Sebastião Ramos de Castro, que comandou a 5ª Brigada de Infantaria Blindada, aqui em Ponta Grossa, disse a ele que um dos grandes erros do regime militar foi ter promovido cassações de mandatos de líderes políticos sem apresentar uma justificativa à sociedade, de modo que a população ficasse sabendo as razões determinantes de cada punição havida. Disse a ele: “General, todos os cassados vão colocar em seus currículos essa pena, como verdadeiro troféu”. Como não houve nenhuma explicação, restou somente a pena, com o que o punido foi transformado em vítima, ostentando o troféu. E o general concordou comigo. Vítima da ditadura, como Leonel Brizola, que viveu um exílio dourado no Uruguai, como criador de ovelhas. Vítima do regime militar, como Miguel Arraes, que viveu seu exílio dourado na Líbia, como corretor das vendas de petróleo para o Brasil. De volta de seus exílios, participaram das primeiras eleições diretas para governadores, em 1982, com votações consagradoras, que elegeram Brizola governador do Rio de Janeiro e Arraes de Pernambuco. Os troféus das cassações lhe deram os tais mandatos.

Agora, o ministro da Educação de Jair Bolsonaro, Abraham Wantraub, anuncia um corte de 30% das verbas de universidades federais, que praticam “balbúrdias”, sem explicitar, com maior clareza e firmeza de autoridade, quais eram essas “balbúrdias” das universidades Nacional de Brasília, Fluminense do Rio de Janeiro e da Bahia. “A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, disse o ministro, que deu exemplos do que considera bagunça: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”.

Foi o mesmo que jogar uma bomba num paiol de pólvora, porquanto a reação, em cadeia, se transformou em protesto político contra o governo. É claro que as administrações das universidades federais – e não só federais – tem problemas sérias de administração, em nome da desejada autonomia, que torna essas instituições como se estados soberanos fossem. E grande parte delas politizada com a ideologia de esquerda.

O anúncio da punição deveria ter sido seguido de um segundo anúncio, o da abertura de inquéritos pela Procuradoria-Geral da República, com a divulgação especificada das razões a serem investigadas em cada uma das três universidades citadas, de modo que as administrações daquelas instituições fossem vistas como suspeitas de malversação do dinheiro público, sem espaço para que a militância do PT e de outros partidos de esquerda retomasse o que mais sabem fazer, baderna na rua. E, aí, o ministro da Educação, tardiamente, teve que tentar consertar a sua precipitação, dizendo que o corte seria horizontal em todas as universidades federais, aumentando o efeito desastrado da improvisação, parecendo até que nunca foi estudante e que não conhece o meio estudantil, nem sabe que a ideologia de esquerda viceja, garbosamente, nesse meio.

E, para completar a obra desengonçada do ministro Wantraub, o presidente Jair Bolsonaro, de seu passeio nos Estados Unidos para receber uma tal homenagem, que não acrescenta, rigorosamente, nada ao Brasil, foi chamar de “idiotas” os estudantes que saíram às ruas. Nem todos, disse ele, mas isso não amenizou a gravidade da palavra “idiotas”.

Está havendo uma velocidade incomum na geração de crises do governo. Das derrotas na Câmara dos Deputados, o governo provoca manifestações de ruas de estudantes. Que, na verdade, foram amplificadas para manifestações políticas dos partidos de esquerda, que, de outro lado, têm trânsito livre nos campi das universidades do Brasil inteiro.

Vale repetir que o presidente Jair Bolsonaro, se não se emendar nos improvisos desastrados e não consertar os desastres políticos do governo, pode, sim, estar caminhando, rapidamente, para uma temporada muito curta no Palácio do Planalto. É que impeachment virou coisa corriqueira no Congresso Nacional. E Bolsonaro precisa saber disso.

Precisa olhar para os “troféus” que o regime militar deu aos seus cassados políticos…

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *