De um lado, Beto organizou as finanças do Estado; de outro, ingressou no mundo do crime

O ex-governador Beto Richa deve ser um paciente bipolar, a merecer um tratamento psicológico, eis que, de um lado, realizou um trabalho exemplar na organização e equilíbrio das finanças do Estado, mantendo a regularidade no pagamento de fornecedores e assegurando o pagamento da folha dos servidos públicos, rigorosamente, em dia, ao longo dos oitos anos dos dois períodos de governo. Um legado notável, mas que não o fará ser lembrado, por isso, eis que, de outro lado, incursionou pelo mundo do crime, da chantagem, da propina, da corrupção, levado pela ambição desmedida, pela ganância em ter mais dinheiro, mais poder financeiro, mais poder econômico, como se não lhe bastasse o significativo poder político, que tinha em suas mãos. Usou esse poder político, em plena temporada da Operação Lava Jato, cuja matriz, ironicamente, está na Capital do Estado, que governava. Ingenuamente, imaginou que não seria descoberto, que os outros políticos que foram denunciados e presos não souberam fazer a coisa bem feita. Só que, com ele, seria diferente, pois haveria de fazer tudo bem feito.
É o raciocínio de todo o malandro, de todo o vigarista, de todo o mau caráter. E, ainda quando a casa cai, se descobre tão estúpido quanto os estúpidos que nomeava.
E, pelo que é revelado pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, Beto se postou no comando de uma organização criminosa, na qual reuniu um irmão, a esposa e dois dos três filhos, que fariam parte de uma empresa de negócios imobiliários. Para lavar o dinheiro da propina das estradas rurais e da propina das empresas concessionárias de rodovias. Que ambição doentia de uma família inteira, que sempre teve tudo o que quis? Como explicar esse desvio de personalidade, essa ambiguidade na administração do Estado? De um lado, uma dedicação exemplar, mostrada ao Brasil, diante de Estados importantes, que quebraram, como o Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro, Minas Gerais. E, de outro lado, o ingresso no mundo do crime, tendo a capacidade de reunir empresários desonestos, em seu próprio gabinete de trabalho no Palácio Iguaçu, para tratar de propina, dinheiro sujo, vantagem criminosa. Como explicar uma personalidade dupla num ser humano guindado a um alto cargo de representação política de seu povo?
No Rio de Janeiro, o ex-governador Sérgio Cabral, em seus dois períodos seguidos de governo, abandonou o governo para se dedicar, inteiramente, a roubar o Estado, porque queria cobrir a sua mulher de ouro, de jóia, e porque queria exibir poder e riqueza. No Rio Grande do Sul, duas administrações petistas contribuíram para quebrar um grande Estado, desfazendo um passado heroico, em que o Rio Grande dava um grito e o Brasil todo ouvia. Hoje, não ouve mais, até porque nem grito o Rio Grande emite mais. Em Minas Gerais, um petista incompetente jogou o Estado nas profundezas de uma crise, sem precedente, em apenas quatro anos. E ainda tentou se reeleger, o que lhe foi negado pelo experiente e surrado povo mineiro. No Paraná, foi diferente, porque, em meio a ações criminosas, o ex-governador Beto Richa deixou um histórico bonito na organização das finanças públicas, permitindo que o Estado continue crescendo, atraindo investimentos e se firmando como grande força econômica do Sul do Brasil.
De seus dois feitos, nunca haverá de ser lembrado pelo bem feito, mas, sim, pelo malfeito. Na prisão, agora, deve refletir sobre isso e, com certeza, estar convencido de que, no registro histórico de sua passagem pelo Palácio Iguaçu, ficará escrito que foi um homem público desonesto, corrupto, chefe de organização criminosa.
Só que o irmão Pepe precisa lhe fazer companhia na cadeia.

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