Procuradora-geral faz pedido insólito, que desmerece imagem do Ministério Público

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, não deveria ter arranhado a imagem do Ministério Público Federal, aos olhos da sociedade brasileira, nesse jogo de sem disfarce de chantagem entre um presidente da República, que sanciona um aumento de salário para uma casta dos servidores públicos, em troca de uma revogação de uma liminar de um ministro, que havia criado um discutível privilégio aos membros do Poder Judiciário e, aí, do Ministério Público Federal e de órgãos afins.

Pedir, publicamente e por escrito, para que o ministro Luiz Fux reveja sua decisão de eliminar o auxílio-moradia, de modo a não submeter a tal medida os membros do Ministério Público Federal, é fazer pouco da inteligência mediana do cidadão comum. É desconsiderar a realidade salarial da enorme massa trabalhadora do País, no desejo acintoso de preservar um privilégio de discutível moralidade, cuja fonte pagadora é o Poder Público. Em outras palavras, é o imposto suado pago pela enorme massa trabalhadora do País, que recebe pelo que trabalha, e recebe pouco, sem nenhum privilégio, que envolva dinheiro público.

Em tempos de Operação Lava Jato e de uma eleição histórica, em que o eleitor votou contra a roubalheira, a corrupção, o oportunismo e todo o tipo de privilégio em cima do dinheiro do povo não faz sentido que autoridades do alto escalão da República se façam de desentendidas e, em plena luz do dia, sem o menor constrangimento, promovam negociações e pleitos de vantagens salariais para si e para seus iguais, como se não fizessem parte da realidade nacional.

A Operação Lava Jato deu ao Ministério Público Federal um brilho que a instituição não tinha, fazendo o mesmo com a Polícia Federal e com uma parte da Justiça Federal, na ação determinada e corajosa do então juiz Sérgio Moro, que fez escola em sua própria instituição.

Ora, a guerra que vem sendo travada pela Lava Jato contra a corrupção, contra verdadeiras organizações criminosas e contra o crime organizado, de um modo geral, fez renascer no brasileiro o sentimento de patriotismo, o sentimento do resgate do orgulho em ser honesto, o resgate da dignidade da cidadania, de vez que todos esses valores haviam sido revogados, a partir de exemplos atentatórios a todos os valores da sociedade brasileira pelas maiores autoridades da República, algumas das quais, graças a Operação Lava Jato, se encontram, hoje, recolhidas a cadeias, condenadas que foram pelas indecências que praticaram.

Ora, essa leitura da emergente nova realidade precisa ser feita pelas autoridades de Brasília, ainda que todas que lá se encontram tenham raízes na realidade do tempo anterior a Lava Jato e às eleições do mês de outubro.

Mesmo com esse vínculo degradante, deveriam se voltar para as ruas, para os movimentos que tomaram conta do Brasil, pedindo mudanças e praticando mudanças contra os descaminhos da moral e da dignidade que campeavam no Brasil. É verdade que Michel Temer ainda é presidente da República. Mas, perdeu o verniz da autoridade, não tem o respeito da sociedade, é um burocrata no exercício do cargo de maior expressão da República, com um acerto de contas marcado com a Justiça, tão logo desça a rampa do Palácio do Planalto.

Seria o momento da autoridade maior do Ministério Público Federal se aliar a esse novo Brasil, que está a surgir com a importante contribuição do Ministério Público Federal. Mas, a exemplo de Temer, que sanciona o aumento, aprofundando a crise das finanças pública, e de Fux, que revoga sua própria liminar, diminuindo de tamanho o STF, eis que surge Raquel Dodge pleiteando a vergonha de um privilégio, sem abrir mão do reajuste da sanção de Temer.

Temos dezembro inteiro, pela frente. E o risco de mais fatos que se anteponham às mudanças já anunciadas, a partir de primeiro de janeiro. Inclusive, esse risco de a procuradora-geral estar em campanha, pela sua recondução ao cargo, junto aos  aos membros do Ministério Público Federal.

 

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