Temer não tem como se sustentar. O “não renunciarei” foi emocional

O tiro no peito do presidente Michel Temer, dado pelo empresário Joesley Batista, dono da JBS, na delação premiada e que veio a público na quarta-feira, já mandou o presidente para a UTI Política. Temer está desmoralizado e não terá como se sustentar na Presidência da República. De nada vão adiantar declarações e versões tentando amortecer o efeito da ação criminosa do dono da JBS, na gravação havida no Palácio do Jaburu. Jamais um presidente da República poderia receber um empresário, investigado em operação policial, em sua residência oficial, fora de agenda, num final de noite, para uma conversa reservada, a dois. É claro que a conversa não seria republicana. E esse é o pecado maior de Michel Temer. O restante é consequência. Mais, alguém só recebe uma visita em sua casa, em final de noite, para uma conversa reservada, se o visitante for de sua intimidade. Fora disso, a conversa não faz sentido.
E, aí, cabe a indagação: Joesley Batista foi o único empresário a visitar Temer em sua residência oficial, em final de noite?…
Em sua fala enfática de quinta-feira, quando proclamou o solene “eu não renunciarei”, bem que poderia ter acrescentado, como fizeram Collor e Renan Calheiros e outros, que “a palavra renúncia não consta do meu dicionário”. Diante da gravidade do que foi revelado na quarta-feira, não há sobrevida para o presidente Michel Temer. É que novas revelações estão acontecendo. E, por conta de tudo isso, o governo está paralisado, a Câmara dos Deputados não sabe o que fazer, o Senado da República está perplexo e a sociedade se perguntando o que vai acontecer no dia de amanhã.
O presidente Michel Temer ou deixa a Presidência da República por ato de decisão pessoal com a renúncia, ou deixará a Presidência da República por meio de um processo mais moroso e dolorido para o País, que é o impeachment. É claro que todas as tentativas em curso não objetivam mais o interesse nacional, mas, sim, o interesse pessoal de Temer, pois, transformado em cidadão comum, fora do poder, é grande o risco de vir parar na República de Curitiba, muito provavelmente, antes do ex-presidente Lula. É essa possibilidade que atemoriza Temer e seus amigos.
A Presidência da República não pode mais virar função corriqueira para um despreparado qualquer, como tem acontecido desde a redemocratização do País. Desde José Sarney até Michel Temer, só tivemos a figura de Fernando Henrique Cardoso a dignificar o exercício do cargo de presidente da República. Sarney ganhou a Presidência da República num autêntico golpe de Estado, em meio a comoção nacional pela morte de Tancredo Neves. Ora, Tancredo morreu na condição de presidente eleito, nunca empossado. Logo, Sarney não havia assumido também. Já é tempo de a História registrar esse fato. Sem preparo e sem autoridade, foi um joguete nas mãos do PMDB e do saudoso Ulysses Guimarães. Fernando Collor, o mais emblemático, foi um moleque trapaceiro, que pagou rápido pelos seus desatinos. Itamar Franco cumpriu o papel que lhe coube, com méritos que precisam ser reconhecidos, eis que nos legou o Plano Real. Aí, tivemos Fernando Henrique em dois períodos de paz social e desenvolvimento econômico. Por fim, chegamos em Lula e Dilma, mais de treze anos de imoralidade, improbidade e a herança dramática que a população está a viver. O vice de Dilma acaba de se apresentar a Nação.
Quase quarenta anos da redemocratização e somos um país sem um líder, que mereça o respeito do povo. Michel Temer ainda pode ter um mínimo de respeito, se renunciar. É tudo o que o Brasil espera e merece.

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