Pela instabilidade do quadro nacional, sumiu a discussão da política local

Discutir o processo da sucessão municipal, em qualquer dos mais de cinco mil e quinhentos municípios brasileiros, perdeu a motivação, diante do agravamento da crise nacional, que é profunda e singular, pelo conjunto de três vertentes: econômica, política e moral. A crise econômica ganhou contornos mais sérios, diante do escancaramento do volume de mentiras da presidente Dilma Rousseff na campanha de 2014, pela sua reeleição. Ela, de tanto mentir, perdeu o respeito das pessoas, no exato instante em que, contados os votos e proclamados os resultados, ela se viu na obrigação de lidar com o inverso de tudo o que havia dito e prometido. E ao se entregar a essa tarefa ingente, mostrou ao povo brasileiro que Lula e ela haviam metido o Brasil na mais dramática crise e que o povo se preparasse para dias amargos. Nesse instante, sem o respeito do povo, a crise política se instalou, porque aliados também resolveram confrontar a presidente que iniciava seu segundo mandato. E foi, aí, que surgiu o deputado Eduardo Cunha como presidente da Câmara dos Deputados, impondo uma derrota ao Palácio do Planalto, que, burramente, resolveu patrocinar a candidatura petista de Arlindo Chinaglia. Foi o rompimento da barragem política que blindava o governo e a presidente Dilma Rousseff.
Em meio a tudo isso, a Operação Lava Jato continuou avançando em suas investigações e evidenciando o mar de corrupção dentro do governo, o que contribuiu para que o Palácio do Planalto contabilizasse também uma crise moral. Assim, passou a colecionar crises, a econômica, a política e a moral. E o agravamento desse conjunto de crises culminou com a instalação de um processo de impeachment, que já contribuiu para desfigurar a imagem impoluta do Supremo Tribunal Federal, que deixou de ser a corte maior e insuspeita da República, permitindo-se a uma versão dolorida de sua congênere venezuelana. Talvez, o dado mais entristecedor nessa quadra toda dos acontecimentos que envolvem esse grande impasse do Brasil. O STF jamais poderia ter comprometido o seu papel de guardião da Constituição e das leis da República. O ministro Luiz Roberto Barroso não tinha o direito de ser, no STF, o “Barrosinho” da intimidade dos amigos.
Como essa realidade nacional alcança o povo brasileiro, passa a ser natural que as lideranças municipais não tenham motivação para estar discutindo os seus problemas domésticos, enquanto um incêndio toma conta do grande território, da matriz da nacionalidade, da governança maior do País.
Aqui mesmo em Ponta Grossa, o debate, que chegou a animar um pouco o público da casa, perdeu sua intensidade e até ficou sem graça, por mão fazer sentido, mesmo, discutir os nomes dos que irão se defrontar com o prefeito Marcelo Rangel no primeiro domingo de outubro, do ano que se avizinha, enquanto Brasília continua transferindo para o povo toda a responsabilidade de seus desencontros, desavenças e desgoverno. É que o povo sabe que o conserto de tudo o que está sendo gerado pelo Palácio do Planalto haverá de lhe custar sérios e pesados sacrifícios, como os que já estão sendo enfrentados, a partir dos números consideráveis do desemprego e do aumento visível do custo de vida.
Aqui, em Ponta Grossa, houve um cidadão lúcido que, indagado em quem iria votar para presidente, em 2014, disse: “Eu voto na Dilma. É que ela precisa continuar no governo, para administrar a crise que o Lula, o PT e ela criaram”. A resposta assustou as pessoas que estavam ao lado, até pelo perfil desse eleitor, que, em situação normal, jamais daria um voto a um candidato do PT. Mas, ele estava, absolutamente, correto na sua avaliação.  Imagina se o senador Aécio Neves ganhasse a eleição e se deparasse com essa crise – no caso, Aécio teria apenas a crise econômica -, o PT estaria desfraldando suas bandeiras vermelhas pelo Brasil afora, acusando Aécio de incompetente, porque diriam que haviam deixado tudo em ordem no governo. O nosso eleitor consciente tinha, sim, toda a razão.
É, por isso, que não há motivação para se discutir a eleição de prefeito.
 

Comente