O que já teria mudado no Brasil, a partir da Operação Lava Jato?

Será que o guarda, na estrada, não recebe mais o “cinquentão” do motorista para não emitir a multa? Ou será que o “cinquentão” já passou para “cenzão”? E, neste caso, o culpado é o guarda corrupto ou o motorista corruptor? Na verdade, a culpa pertence aos dois, porém, o primeiro culpado é o motorista, por ser o corruptor. No mundo da Lava Jato, o principal culpado é o empresário, que, por ser ganancioso, se permite a alimentar os agentes corruptos, com pagamento de propina, para conquistar, com maior facilidade, projetos para suas empresas. E, aí, está um dos grandes méritos da Operação Lava Jato, por investigar, denunciar e prender o empresário. Mas, sem ignorar os demais agentes da corrente, que se formou. Se não fosse o empresário corruptor, os ladrões da corrente não teriam como sobreviver, até porque a corrente nem se formaria. É claro que isso não significa que, de repente, o empresário seja levado à prática da corrupção, como agente principal, por oferecimento de facilidades por gestores públicos, ainda que assim continue sendo o corruptor.
O juiz Sérgio Moro, do alto de seu equilíbrio e prudência, já declarou, nas inúmeras palestras que tem proferido, que a Operação Lava Jato não vai acabar com a corrupção no Brasil. E ele está correto, porquanto o combate à corrupção precisa se dar na sociedade e pela sociedade, de modo a extirpar esse mal terrível, que é a roubalheira do dinheiro público, de sua própria cultura. Sim, a corrupção, hoje, faz parte da cultura do brasileiro. O “cinquentão” que o motorista já coloca entre os documentos, na parada de seu carro, pelo policial de estrada, é um ato de corrupção. E fica mais barato pagar o “cinquentão” do que a multa. Só que, neste caso, o motorista precisa se reciclar, mudar de vida, passar a respeitar a Lei, não ultrapassar aonde é proibido, respeitar os limites de velocidade. Fazendo isso, o guarda até pode pará-lo na estrada para uma investigação de rotina, mas não haverá necessidade de deixar a nota de cinquenta reais no meio dos documentos do veículo. Mas, qual motorista se dispõe a essa mudança radical de comportamento?
E a figura do motorista de estrada, aqui, merece ser vista como o retrato do cidadão, no dia-a-dia. O empresário não paga propina ao fiscal da prefeitura? O contribuinte do Estado não faz o mesmo com o fiscal da Secretaria Estadual da Fazenda? Estamos, aqui no Paraná, com uma grande operação do Ministério Público e Polícia Militar, na Operaçao Publicano, que estourou uma quadrilha que operava em Londrina, a partir da Delegacia da Receita Estadual. E o fato levantado em Londrina não é uma exclusividade da antiga Capital do Café, não.
E, pela oportunidade, vale dizer que a Operação Publicano, de relevante significado para a moralização no serviço público estadual, aqui no Estado, só não está ganhando maior repercussão, pelo fato de os principais holofotes estarem voltados para a Operação Lava Jato, de âmbito nacional, por cuidar do mais extraordinário esquema de roubalheira do dinheiro público do Brasil, que quebrou a Petrobrás.
Qual foi o prefeito, ou governador de Estado, ou mesmo autoridade federal, que, diante das ações da Operação Lava Jato, teve a coragem de proclamar, de público, uma guerra a prática da corrupção, no âmbito de sua competência? Alguém ouviu um prefeito dizer isso, no Brasil? Algum governador de Estado tomou tal iniciativa? E o governo federal, patrono de toda essa esculhambação moral, não deveria ter dado o exemplo e sendo o primeiro a proclamar uma cruzada nacional contra a corrupção?
Não basta convocar as pessoas para sair às ruas. É preciso, antes, que todos nos eduquemos, a partir de nossas casas, de nossas famílias, de nossos ambientes de trabalho.
É preciso que a Operação Lava Jato seja trazida, no seu espírito, para o âmbito municipal, onde começa o Brasil. E que as pessoas, nesse pequeno território, passem a discutir a dignidade da cidadania. É que ninguém pode imaginar que o resgate da moralidade pública, em Brasília, onde o Brasil “termina”, possa se dar pelas mãos de Lula, de Renan e de Cunha.

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