A disparada de Marina Silva guarda todos os caracteres de uma predestinada

É sabido que na vida nada acontece, por acaso. Tudo tem uma razão de ser, ainda que nem sempre a mente humana seja capaz de captar esse lado misterioso de nossa presença neste plano do Universo.

Mas, falemos da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva que está virando o centro das atenções do universo brasileiro, por conta de um repentino e não esperado salto de popularidade, na corrida pela Presidência da República.

Diante de circunstâncias tão inusitadas, não custa avançar pelo terreno da religiosidade, ou da espiritualidade, para se encontrar uma explicação, ao menos razoável. Nessa linha de raciocínio, de pronto, haveremos de concordar que Marina é uma predestinada, como predestinado é o próprio Lula, um retirante da miséria nordestina que alcança a Presidência da República. Não temos em nossa história nacional nenhum caso de tamanha persistência pela busca do Palácio do Planalto que se pareça com a de Lula, que perseverou por quatro vezes, ou dezesseis anos. Derrotado em três campanhas, não se deu por vencido, até que, mais amadurecido, acabou por descobrir que a sua vez havia chegado.

A cidadã sofrida do Acre faz uma bonita carreira pessoal na vida pública, chegando a ser eleita senadora e ministra do primeiro governo de Lula. Deixou o ministério, desligou-se do partido que ajudou a fundar, o PT, e se apresentou como candidata presidencial, em confronto direto com uma ex-colega de ministério, apresentada por Lula. Marina não ganhou a eleição de 2010, mas virou um mito, esse negócio que ninguém sabe explicar, como o tal do carisma, uma energia invisível que seduz as pessoas.

Todo mundo, até hoje, que se dispôs a criar um partido político, por aqui, conseguiu seu intento, menos Marina, o que chama a atenção. Logo ela, carismática, experiente, dona de cerca de vinte milhões de voto, de repente, tropeçou e não conseguiu registrar o partido próprio que lhe garantiria abrigo para uma nova candidatura à Presidência da República.

Sem muita alternativa diante da exigüidade do prazo para uma definição partidária, acabou se filiando ao PSB e aceitando a candidatura de vice-presidente na chapa encabeçada pelo então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, um figurino que não lhe caía bem. Dona de convicções ortodoxas, Marina sempre foi vista com reserva por boa parte da sociedade brasileira, a começar pelos empresários urbanos e rurais. Mas, na condição de vice, ninguém estava muito preocupado com ela, até porque Eduardo não conseguiu materializar a expectativa de se constituir na novidade do pleito. Num quadro de normalidade, seria o terceiro dentre os três principais concorrentes.

De repente, uma tragédia tira a vida de Eduardo Gomes e a candidatura presidencial cai no colo de Marina Silva, já de uma Marina mais “normalizada”, mais afeita ao conjunto de idéias mais moderadas do grupo que acompanhaa e sustentava a candidatura de Eduardo Campos. Feita candidata, aceitou a indicação de um vice do Rio Grande do Sul, deputado Beto Albuquerque, ligado aos produtores rurais e ao empresariado, de um modo geral. Um moderado ao lado de uma Marina em processo de mudança, de conformação com a necessidade de rever os conceitos ortodoxos até dois ou três dias atrás.

Metamorfoseada, não apenas manteve o eleitorado de Eduardo Campos, como deu um espetacular salto na arrancada de sua campanha, como cabeça de chave, e passou a rivalizar com sua antiga colega de ministério, mandando para o terceiro lugar quem havia se instalado, aparentemente em caráter definitivo, no segundo lugar.

Predestinada, Marina Silva é a mais nova empolgação do eleitorado brasileiro, que, de outro lado, não quer mais o PT no comando da Nação, ainda que Lula se imagine comandante eterno da criatura que inventou para a campanha de 2010. Doze anos é um tempo regular. A hora é de mudar. E a mudança se chama Marina Silva. Não há mais nada que o PT possa fazer, nem os argumentos fortes de racionalidade de Aécio Neves serão suficientes para obstar a ascensão de Marina Silva ao Palácio do Planalto.

Só para encerrar: Marina, de certo modo, repete o bispo Fernando Lugo do Paraguai, na derrota que impôs ao poderoso Partido Colorado. Mas, no poder, não pode continuar guardando semelhanças com ele.

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