As campanhas proporcionais estão descoloridas, sem sal, sem tempero, porque são muito pessoais

O nosso quadro partidário faz justiça a uma declaração do ex-prefeito Otto Cunha, na década de oitenta, segundo a qual “partido político só serve para registrar candidatura”. E lá se vai um tempo de, praticamente, trinta anos, sem que nada tivesse mudado. Se mudança houve, foi para pior, porque os partidos continuam sendo balcões de negócio. Antigamente, poder-se-ia dizer que somente o PT era diferente. Aliás, os petistas até tinham uma música que falava disso, “ser diferente é bom até demais”. Porém, bastou o partido chegar ao poder para se revelar, por inteiro, não apenas igual aos outros, como muito mais profissional no promover o desfiguramento do papel institucional dessa importante ferramenta da democracia. O PT jogou no lixo sua própria ideologia, sua decantada ética, e passou a se associar a todo e qualquer partido que se dispusesse a apoiar o governo no Congresso Nacional e a lhe garantir uns segundos a mais no rádio e na televisão. Até o PP de Paulo Maluf, descaradamente, virou parceiro do PT.

Por conta dessa anarquia geral e crescente nos partidos políticos, os candidatos, especialmente ao pleito proporcional, cuidam de seus próprios interessas, apresentam suas próprias propostas, inventam suas verdades e saem por aí em busca dos votos que necessitam para se eleger. Nada a ver com a proposta do próprio partido, embora os programas partidários não tenham mais valor algum, porque, quando muito, cumprem uma exigência legal para existirem, como tal. Nada mais.

Assim, nesse desarranjo total, o eleitor mais consciente cumpre um dever e não um direito, porque o seu voto está longe de representar uma contribuição efetiva para uma mudança, para melhor, do Poder Legislativo no Brasil, nas suas três esferas, porque não há uma garantia de que a transformação se dê para o bem da sociedade. O compromisso pessoal do candidato é tênue, fraco, inservível. Aí, o voto, obrigatoriamente, vai se dar no processo de exclusão, e não no de preferência. Entre o ruim e o pior, a opção ficará com o ruim. É esse quadro que explica a razão da indiferença da campanha e até mesmo do elevado custo para os candidatos. Em termos de Paraná, a campanha de um candidato a deputado estadual, de candidato que está de fato buscando se eleger, não sai por menos de R$ 3 milhões, enquanto que, para deputado federal, esse valor vai bater na casa dos R$ 5 milhões. E esses custos, esses valores merecem ser chamados de investimentos, porque a soma do subsídio tanto de um deputado estadual, quanto de um federal, nos quatro anos de mandato, fica muito aquém de tais números. Não há patriotismo nisso aí, portanto.

Difícil, pois, a vida do eleitor consciente. Mesmo, assim, esse eleitor consciente cumpre o seu dever, a obrigatoriedade do voto. E o que mais preocupa é que esse eleitor consciente está perdendo as esperanças quanto a mudanças, em favor do bem comum, do interesse maior da sociedade nacional. Como imaginar uma reforma política, em que os próprios políticos se disponham a cortar privilégios e conveniências pessoais?

Quem parar para pensar, refletir, vai concluir que, de fato, no primeiro domingo de outubro tem uma obrigação a cumprir. Como mudar um quadro geral de anarquia, em cima de obrigações que se sobrepõem aos direitos?…

Mas, vamos lá, porque, de repente, é até possível que surja alguém, com um proceder diferente. Mas, diferente do diferente que o PT se dizia ser.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *