Vamos votar pela eliminação. O voto da preferência fica mais para a frente

Em 82, tivemos a primeira eleição direta para governadores, após as duas décadas do regime militar. Naquele ano e alguns poucos na sequência, apresentavam nomes de respeitáveis lideranças regionais, que haviam militado no pluripartidarismo do pós-Vargas e do pré-regime militar. Com todas as imperfeições da época, foi um período rico de militância política, que revelou Juscelino Kubitscheck, Jânio Quadros, Jango Goulart, Plínio Salgado, Adhemar de Barros, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Magalhães Pinto, Tancredo Neves, Miguel Arraes. O regime militar de 64 cometeu o crime de extirpar essas lideranças do cenário da militância política, especialmente, com a extinção do quadro partidário vigente para a adoção de um sistema bipartidário, representado pela Arena – Aliança Renovadora Nacional -, que apoiava o governo, e pelo MDB – Movimento Democrático Brasileiro -, que fazia a oposição possível.

Afora o debate ideológico em torno do regime militar, que não caiu do céu, por descuido, mas foi pedido, nas ruas, pelo povo brasileiro, importa considerar, aqui, o mal produzido para a sociedade brasileira, no aniquilamento das lideranças políticas, tidas e havidas como inimigas do novo regime, que se estendeu no tempo, muito além do desejado e do necessário, eis que, o pedido que emergiu das ruas, era de uma transição para restabelecer a ordem e o princípio da autoridade. A ambição dos chefes militares acabou por prolongar por duas décadas o que era para ter uma curta duração, coisa de um ano, porquanto o calendário estabelecia eleições para 65. Que não aconteceram.

A partir do espichamento do regime no tempo, houve a castração do processo de afirmação e de surgimento de lideranças políticas. A nossa incipiente cultura democrática foi para o arquivo e a sociedade foi induzida a deixar de discutir política e consequentemente de participar de seu processo. O que sobrou da classe política foi pouco. Sem força, porque órfã de comando, de direção, de líder, passou a ser considerada desnecessária, porque o regime induziu a sociedade a esse convencimento.

É possível que o regime não tivesse se encompridado no tempo, por tanto tempo, se não tivesse havido a organização de uma guerrilha extremista e provocativa, que se sentiu derrotada pelas forças do novo regime, de vez que ela sonhava se tornar poder, tão ou mais autoritário do que o militar e com uma duração muito além das duas décadas.

Mas, tudo isso passou e, hoje, estamos em ano de eleição para presidente da República, governadores estaduais, senadores, deputados federais e deputados estaduais. E o que mais chama a atenção nesse processo de evolução democrática é que estamos distantes de reeditar nossas grandes lideranças das décadas de cinqüenta e sessenta. Imaginava-se que levaríamos o mesmo tempo de duração do regime militar para a revelação de quadro afirmativo de novas lideranças. Lá se foram dez anos a mais dos vinte do regime e somos uma sociedade sem comando firme, de orientação competente e de indicação de um futuro promissor.

Nossa classe política, em seu conjunto, é promíscua, de visão estreita, mas de largo apetite para os interesses pessoais. O debate nacional é frágil. O compromisso com o interesse público é limitado ao pequeno clamor popular. A decência e a moralidade na administração pública, nos três níveis de governo, pertencem ao discurso da oposição e se contrapõem à prática de quem governa.

Dos três principais candidatos, há uma tendência visível do voto pela eliminação. Depois de trinta e dois anos de regime militar, já não seria sem tempo votarmos pela preferência. Vai demorar mais um pouco.

E contentemo-nos com Aécio, Dilma e Eduardo. Numa interessante ordem alfabética.

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