O lugar da Central de Leitos de Ponta Grossa só pode ser em Ponta Grossa

 O discurso em torno da Saúde Pública já alcançou o grau do insuportável, seja no plano nacional, no plano estadual, no plano municipal. É preciso que aconteça uma verdadeira revolução no Sistema Único de Saúde, o famoso SUS, cujo pagamento escandaloso para o médico, nos valores mais irrisórios possíveis e, assim também, para os hospitais conveniados, leva ao atendimento humilhante ao segurado desse sistema, que é o pobre. Não chega a ser compreensível, e muito menos honesta, a absurda diferença entre o valor pago pelo SUS e o valor cobrado no atendimento particular. Enquanto aquele é uma miséria, este é um assalto. Aliás, o valor cobrado no atendimento particular parece até ser uma vingança contra a prática absurda do programa governamental.

Mesmo com todas as dificuldades do mundo, quem tem um mínimo de condições para contratar um plano privado, faz um esforço, se priva de alguns benefícios , para si e para sua família, tudo para amenizar o risco de ser tratado como indigente, como um número qualquer, numa fila, onde o atendimento se dá por escala. Aliás, o atendimento se dá por meio de uma tal Central de Leitos que, não havendo vaga em hospitais da própria cidade, manda o paciente para um hospital a cinqüenta, cem quilômetros, sem a menor preocupação com o conforto desse ser humano, sem a menor consideração com os familiares desse ser humano, que é tratado com uma revoltante indignidade.

Esse jogo de mandar o paciente do SUS – paciente do SUS é sinônimo de cidadão de terceira classe, sem identidade, sem direito a respeito, a consideração – para uma localidade distante atende uma economia de escala do sistema público, como se saúde fosse uma mercadoria qualquer. Não tem saúde aqui, manda o cliente buscar saúde onde haja estoque. E lá vai esse cliente, sozinho, sem o conforto de um parente, para ser tratado ao sabor do próprio sistema.

Isso acontece no Brasil inteiro. E, como acontece no Brasil inteiro, acontece também em Ponta Grossa. Como o Brasil começa onde a gente vive, na cidade da gente, no bairro da cidade da gente, na vila do bairro da cidade da gente, na rua da vila, do bairro, da cidade da gente, é preciso que o grito de indignação se dê em direção às autoridades locais, pelo distanciamento das autoridades estaduais e, em especial, das autoridades federais. O prefeito de Ponta Grossa, no caso, deveria ser o primeiro a ter levantado a sua voz contra o encerramento das atividades da Central de Leitos aqui, na cidade, com sua conseqüente transferência para Curitiba. Ponta Grossa, não apenas tem direito de ter a sua própria Central de Leitos, funcionando na própria cidade, como as autoridades locais tem a obrigação de reivindicar e conseguir a ampliação do número de atendimentos dos segurados do sistema público de saúde. É preciso, por imposição das próprias circunstâncias, que a indignação ganhe as ruas, vire protesto, crítica, denúncia contra a criminosa omissão de nossas autoridades, que não se comovem com a dor do mais necessitado, como se o pobre não sentisse dor.

O prefeito, pela delegação que recebeu do povo, tem a obrigação de cobrar do governador do Estado uma atenção maior no atendimento da saúde do pobre, da mesma forma, como o governador tem o dever de erguer a sua voz perante a presidente da República.

O pobre não é um saco de milho, de soja, de batata; o pobre é um ser humano, que, doente, tem o direito de ser tratado na sua cidade, com o conforto de seus parentes, de seus familiares. É um direito à dignidade humana. Alguém precisa assumir essa bandeira.

 

 

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